


Repórter/Redator(a): Alisson Araujo
Crescimento e desafios do ciclismo no Brasil
Entrevista com Luiz Amorim — 5x campeão brasileiro de ciclismo
Pedalar no Brasil: entre o impulso e os obstáculos
Panorama Atual e Dados que Corroboram o Crescimento
Grupos de Apoio: a força da coletividade
O Ciclismo como Solução Social

L’Étape Brasil: o ciclismo que inspira todas as idades
Nos últimos anos, o ciclismo no Brasil deixou de ser uma prática limitada a atletas e entusiastas para se tornar um movimento popular em plena expansão. Seja por lazer, esporte ou mobilidade urbana, a bicicleta ganhou novos espaços nas ruas, nas trilhas e até no debate público sobre qualidade de vida nas cidades.
De acordo com dados recentes da Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC), a prática da modalidade teve um aumento expressivo tanto na participação em provas oficiais quanto na base de praticantes amadores. O número de filiações à CBC cresceu nos últimos três anos, refletindo o fortalecimento do ciclismo como esporte de competição e estilo de vida.

Além disso, o canal oficial da CBC no YouTube tem apostado em maior visibilidade da modalidade, com transmissões de provas ao vivo, entrevistas com atletas e conteúdos educativos — aproximando o público do ciclismo profissional de maneira inédita no país.
Esse crescimento também pode ser observado nas ruas. Grupos de pedal se multiplicam nas cidades grandes e médias, promovendo encontros semanais, eventos beneficentes e até pressionando governos locais por mais infraestrutura cicloviária.
Apesar do avanço, os desafios persistem: falta de segurança, infraestrutura inadequada e pouco incentivo governamental continuam sendo entraves importantes. Para entender melhor esse cenário, conversamos com Luiz Carlos Tavares Ferrão Amorim, um dos maiores nomes do ciclismo brasileiro.

Grupo de ciclismo Personal Team Jr pedala de mountain bike em trilha na floresta, refletindo a expansão da modalidade no país — Foto: Alisson Araujo
Luis Amorim comemora no pódio com o troféu de campeão, símbolo do bom momento vivido pelo ciclismo brasileiro — Foto: Bikemagazine
“O ciclismo brasileiro vive um momento de crescimento. Quais fatores você acredita que mais contribuíram para essa popularidade recente?”
“Sem dúvida, a pandemia fez muita gente buscar atividades ao ar livre. A bicicleta apareceu como uma alternativa saudável e acessível. Além disso, os grupos de pedal cresceram muito e se tornaram verdadeiras comunidades. Isso ajudou a fortalecer a cultura da bike. E claro, o bom desempenho de atletas brasileiros em competições também inspira novos ciclistas.”
“O que falta para o Brasil se consolidar como referência internacional no ciclismo, tanto na parte esportiva quanto na mobilidade urbana?”
“Faltam três pilares principais: investimento, estrutura e valorização. A gente tem atletas com potencial para competir no mais alto nível, mas muitos desistem por falta de apoio. Na mobilidade urbana, é preciso ter planejamento, ciclovias bem conectadas e campanhas educativas. O Brasil tem tudo para ser referência, mas precisa acreditar mais no ciclismo como solução esportiva e urbana.”
“Como você vê a relação entre ciclistas e motoristas no país? E quais medidas poderiam melhorar a segurança no trânsito para quem pedala?”
“Infelizmente, ainda é uma relação muito difícil. Falta empatia e consciência por parte de muitos motoristas. Tem gente que não vê o ciclista como parte legítima do trânsito. Isso é grave. A educação no trânsito precisa começar nas escolas. Além disso, campanhas constantes na mídia e investimento em infraestrutura segura são fundamentais. O ciclista tem que se sentir protegido — não exposto.”
O ciclismo brasileiro vive um momento promissor, mas precisa de mais do que entusiasmo para seguir crescendo. São necessárias políticas públicas, investimentos no esporte de base, infraestrutura adequada e respeito no trânsito. Enquanto isso, atletas como Luis Amorim seguem inspirando uma nova geração de ciclistas que acreditam que, sim, o Brasil pode pedalar muito mais longe.
Hoje, o país assiste a uma verdadeira efervescência em torno da bicicleta. Mas esse movimento ainda caminha em duas direções: de um lado, a paixão popular e o esforço de coletivos independentes que têm dado fôlego à modalidade; de outro, as barreiras históricas de um modelo urbano centrado no carro, que torna a vida do ciclista mais difícil e, muitas vezes, arriscada.
Dados de segurança viária revelam a dimensão desse desafio: mais de mil ciclistas morrem todos os anos em acidentes de trânsito no Brasil. Embora os números mostrem pequena redução nos últimos anos, eles ainda expõem a vulnerabilidade de quem pedala diariamente. A bicicleta, que deveria ser sinônimo de saúde, lazer e mobilidade sustentável, ainda é vista por muitos motoristas como um “corpo estranho” no trânsito.

Ciclistas da Velotrip pedalam em grupo por estrada, em meio à crescente mobilização pela bicicleta no Brasil — Foto: Alisson Araujo
Apesar disso, o cenário não é apenas de dificuldades. Em cidades que ampliaram suas ciclovias, como São Paulo, que saltou de pouco mais de 60 km de infraestrutura em 2013 para quase 700 km em 2025, já se nota uma transformação cultural. O que antes era visto como lazer de fim de semana passou a ser encarado também como meio de transporte. A cada nova via dedicada, mais pessoas se sentem seguras para trocar o carro ou o ônibus pela bicicleta.
No campo esportivo, o quadro é semelhante. A base de praticantes cresce, mas o investimento segue desigual. Menos de 5% dos recursos públicos destinados ao esporte chegam a modalidades como o ciclismo, enquanto outras práticas concentram a maior parte do orçamento. Essa disparidade cria um gargalo: há entusiasmo e novos talentos surgindo, mas falta apoio para que esses jovens consigam chegar ao alto rendimento.
Quando se compara o Brasil a países onde a bicicleta é prioridade, percebe-se o quanto ainda há a avançar. Na Holanda e na Dinamarca, por exemplo, a bicicleta já responde por mais de 20% dos deslocamentos urbanos, fruto de décadas de investimentos consistentes em ciclovias interligadas e campanhas educativas. No Brasil, a média ainda não passa de 5% em nenhuma capital. A distância mostra que o potencial existe, mas não é aproveitado em sua totalidade.
Ainda assim, os movimentos de base e a dedicação de atletas como Luis Amorim têm conseguido manter viva a chama do ciclismo nacional. São eles que mostram que a bicicleta pode ser muito mais do que duas rodas: é uma solução concreta para problemas de mobilidade, saúde e qualidade de vida. O desafio está em transformar o entusiasmo da população em políticas permanentes que façam do ato de pedalar uma escolha natural, segura e valorizada em todo o território brasileiro.

O depoimento de Luis Amorim encontra respaldo em dados concretos. Embora a CBC ainda não divulgue estatísticas completas de participação, há indicadores recentes que refletem essa evolução:
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A CBC mantém rankings atualizados para diversas categorias — alto rendimento, base, estrada e equipes — com dados até maio de 2025, demonstrando movimentação ativa no calendário competitivo.
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No paraciclismo, o Brasil conquistou a 5ª posição no ranking mundial por nações, mostrando a expansão e o fortalecimento da modalidade além do ciclismo convencional.
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Na esfera urbana, apenas 1% da malha viária nas capitais brasileiras conta com ciclovias. Ainda assim, cidades como Rio de Janeiro (~3,17 %), Curitiba (2,7 %) e Florianópolis (2,2 %) estão à frente na infraestrutura.
Esses dados, somados à crescente visibilidade digital, comprovam que o país está, de fato, pedalando cada vez mais — ainda que o ritmo varie de acordo com cada cidade e modalidade.
Gráfico mostra a evolução e os desafios do ciclismo no Brasil, com base em dados da OMS e da CBC até maio de 2025 — Arte: Alisson Araujo

Se por um lado a infraestrutura pública ainda é limitada, por outro iniciativas privadas e assessorias esportivas têm desempenhado um papel fundamental na consolidação do ciclismo no Brasil. Um exemplo marcante é a Personal Team e Personal Team Jr, com sede em São Paulo, que se tornou referência no acompanhamento de ciclistas amadores e profissionais.
Muito além de treinos organizados, essas assessorias oferecem suporte técnico, acompanhamento personalizado, preparação física, planejamento de competições e integração social. O resultado é um ambiente de alto rendimento, mas também acolhedor, que aproxima iniciantes do universo competitivo sem abrir mão do espírito de comunidade.
Eu mesmo, Alisson Araújo, repórter desta matéria, tive a oportunidade de iniciar minha trajetória no ciclismo através da Personal Team. Foi nesse grupo que descobri a paixão por pedalar, participei das primeiras competições e compreendi como o apoio especializado faz diferença para quem deseja evoluir.
Com patrocínios de empresas de peso como Mercedes-Benz e Porto Seguro, a Personal Team reúne atletas de destaque nacional e internacional. Entre os grandes nomes está Luiz Amorim, o “Luisão”, que já conquistou títulos expressivos como o Campeonato Brasileiro de Contrarrelógio e de Estrada, além de participações vitoriosas no Giro d’Italia e no L’Étape du Tour de France. Esses resultados não apenas projetam o nome da equipe no cenário esportivo, mas também inspiram toda uma geração de ciclistas brasileiros.
O exemplo da Personal Team mostra que a coletividade e o suporte profissional são peças-chave para o fortalecimento da modalidade. Ao mesmo tempo em que impulsionam atletas ao alto rendimento, essas assessorias também constroem pontes entre o ciclismo de base e as grandes competições internacionais, reforçando a ideia de que o Brasil tem potencial para figurar entre as maiores potências do esporte mundial.
Outro desafio importante está na iniciação esportiva. Enquanto o futebol atrai a maior parte do investimento público e privado, modalidades como o ciclismo ainda sofrem com a falta de programas de base.
Nesse cenário, iniciativas privadas e sociais têm desempenhado um papel crucial. Um exemplo é a Personal Team Jr, projeto criado pela Personal Team em São Paulo sob a liderança de seu CEO, Arthur Audi, justamente com o objetivo de abrir espaço para crianças e adolescentes conhecerem o ciclismo de forma estruturada.
O projeto disponibiliza bicicletas, treinadores e acompanhamento especializado, permitindo que jovens tenham acesso a treinos de qualidade e aprendam desde cedo valores como disciplina, cooperação e espírito de equipe. Mais do que formar futuros atletas, a Personal Team Jr busca mostrar que o esporte pode ser um caminho de transformação social, oferecendo novas perspectivas para meninos e meninas que muitas vezes não teriam acesso a esse universo.
Equipe Personal Team Jr posa uniformizada em frente à sede, projeto que busca revelar novos talentos e promover a iniciação esportiva no ciclismo — Foto: Alisson Araújo
O uso da bicicleta no Brasil tem crescido de forma expressiva nos últimos anos. O que antes era visto principalmente como lazer ou prática esportiva, hoje assume múltiplos papéis, dialogando com questões de saúde, meio ambiente e inclusão social. Esse movimento reflete uma mudança cultural e também um reposicionamento da bicicleta como meio de transformação nas cidades brasileiras.
Saúde Pública
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o sedentarismo é um dos maiores desafios da atualidade, contribuindo para doenças como obesidade, diabetes e hipertensão. O ciclismo surge como alternativa acessível para a prática regular de atividade física, promovendo qualidade de vida e prevenindo problemas de saúde. Pedalar, além de exercício, é também uma forma prazerosa de integrar movimento ao cotidiano.
Sustentabilidade
Em tempos de mudanças climáticas e busca por soluções mais sustentáveis, a bicicleta desponta como transporte limpo e eficiente. Ao substituir veículos motorizados, reduz-se a emissão de poluentes e o congestionamento urbano, tornando as cidades mais respiráveis e equilibradas. Além disso, investimentos em ciclovias e infraestrutura adequada contribuem para uma mobilidade urbana mais justa e inteligente.
Inclusão Social
Mais do que uma questão ambiental ou de saúde, a bicicleta também se apresenta como ferramenta de transformação social. Diversos projetos comunitários têm usado o ciclismo como forma de inclusão, oferecendo atividades esportivas e educativas para crianças e jovens em comunidades periféricas. Esse contato não só amplia oportunidades, como fortalece o senso de pertencimento e cria alternativas de futuro em realidades muitas vezes marcadas pela exclusão.
O crescimento do ciclismo no Brasil não deve ser encarado apenas como uma tendência passageira ou moda esportiva. Ele representa uma resposta concreta a desafios contemporâneos que vão desde a saúde pública até a sustentabilidade e a inclusão social. Investir na cultura da bicicleta significa investir em cidades mais humanas, em cidadãos mais saudáveis e em um futuro mais sustentável.
Se por um lado a bicicleta tem ganhado espaço como meio de transporte e ferramenta de transformação social, por outro o calendário esportivo também mostra como o ciclismo dialoga com diferentes gerações. Um exemplo emblemático é o L’Étape Cunha, etapa brasileira do tradicional L’Étape du Tour de France, considerada uma das maiores provas de ciclismo amador do mundo.
Realizado em Cunha e Campos do Jordão, em São Paulo, o evento reúne milhares de ciclistas de todo o país e se consolidou como símbolo de inclusão esportiva: não importa a idade ou o nível de experiência, todos têm a oportunidade de vivenciar a atmosfera de uma competição inspirada no maior evento do ciclismo mundial.
Bete Villalobos destacou como a bicicleta lhe proporcionou não apenas saúde física, mas também uma nova rede de amizades e motivação diária. Para ela, o L’Étape é mais do que uma prova: é um marco de superação pessoal e um espaço em que mulheres maduras podem mostrar força e protagonismo.
Já Nelson Lucena, aos 64 anos, falou sobre como encontrou no ciclismo uma forma de manter a vitalidade e de se desafiar constantemente. Participar do L’Étape, segundo ele, é viver um sonho e provar que a idade não é barreira para quem busca saúde, disciplina e novas conquistas.
Esses depoimentos reforçam o que discutimos ao longo desta matéria: o ciclismo no Brasil vai muito além da alta performance. Ele é uma ferramenta de inclusão, saúde pública e transformação social, que abre portas para diferentes gerações e mostra que pedalar é uma escolha que pode acompanhar o ser humano em todas as fases da vida.